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Este governo e este PR tomaram posse comprometendo-se a servir os interesses do país. Mas a sua acção tem sido contraditória com o que assinaram e com o que dizem defender.

 

O governo com as suas conferências de imprensa e insistência nas mesmas soluções, cortes nos mais frágeis e nos mesmos de sempre, a carregar sempre na mesma tecla mesmo sabendo antecipadamente que essa repetição era inconstitucional, repetindo a propaganda da austeridade nas televisões através dos comentadores de serviço, mantendo em funções um ministro das finanças que já é percebido pelos cidadãos como um funcionário de Bruxelas, o que pretende a não ser a instabilidade política?

Primeiro ainda terá tentado neutralizar a oposição, o convite da RTP ao ex- PM para comentador político não foi inocente pois por uns dias o secretário-geral do PS pareceu agitar-se na cadeira. Falhada esta estratégia, ainda havia a hipótese do consenso alargado, mas também não pegou. Finalmente, ainda tem a instabilidade política de reserva, e é ver as frotas de carros (de marca alemã) alinhadas para os conselhos de ministros de 11 horas (!) e as informações que vão transpirando para fora (!) a revelar que isto está por um fio. Mas como isto já não funciona como chantagem política, já ninguém se comove, talvez funcione como justificação para algum deles abandonar o barco...

 

Só que se esqueceram que os cidadãos não estão para aturar mais instabilidade e insegurança, nem cortes nos mesmos, nem exemplos de gestão danosa, nem a manutenção do ministro das finanças. Querem aquilo que o governo ainda não conseguiu garantir: estabilidade e responsabilidade, resultados visíveis após tantos cortes nos mesmos, a economia a mexer, sinais de uma mudança cultural dos gestores políticos e financeiros, se têm de cortar que cortem nos interesses dos grupos protegidos, que façam o trabalho que lhes compete.

 

 

O PR falou em estabilidade, mas o discurso foi percebido como provocador para a oposição e para os próprios cidadãos. Se era estabilidade o que o PR pretendia defender, então porque foi percebido exactamente o contrário? E que cultura de base reflecte este discurso? Ausência de vitalidade, ausência de esperança, ausência de futuro. Claro que a partida da troika não acaba com a necessidade de recuperar a economia. Mas esta estratégia do governo é que não dá para a reanimar sequer. As pessoas concretas estão ausentes do discurso, apenas como pretexto para dar recados à oposição: não explorem a angústia das pessoas. Ora bem, quem anda a explorar a angústia das pessoas não é quem as assusta todos os dias com cortes e anúncios de cortes?, quem lhes retira a esperança e o futuro?, quem lhes coloca aos ombros toda a culpa dos desvarios de governos sucessivos desde o seu, o período do cavaquismo?, passando pelo pântano do guterrismo, seguido pelo abandono do barco do barrosismo, para dar tempo ao socratismo de nos vir deslumbrar com o seu malabarismo, e dar lugar à execução final de um plano para a Europa baseado na desvalorização do valor do trabalho?

 

Lembram-se que já um ministro da economia do anterior governo do PS falava disso?, de baixar os salários para competirmos com a China? O guião já lá estava. Lembram-se como o ex-PM já era um bom aluno de Bruxelas? O plano já lá estava. Lembram-se da ausência de supervisão bancária de Constâncio, o então governador do BdP e como foi promovido ao BCE? O puzzle compõe-se a pouco e pouco.

Também aqui, se o convite do ex-PM para comentador político na RTP pretendia incomodar o PR, isso pode explicar algumas indirectas ao PS. Os actuais gestores políticos ainda revelam uma sensibilidade muito egocentrada, tudo gira à sua volta.

 

Quando se fizer o balanço 1985- 2001 (condições da integração na CE), 2001 - 2004 (adaptação à moeda única) e 2005 - 2012 (a bancarrota e a perda da autonomia) já podemos entender melhor o que se passou cá e na Europa, que estes patamares andaram juntos, e evitar voltar a cometer os mesmos erros.

 

Para já, estabilidade e responsabilidade é o que se pede aos gestores políticos: governo e PR. Porque são eles os escolhidos nas eleições, depois de nos terem dito que estavam à altura do lugar.

E estabilidade e responsabilidade é também o que se espera da oposição. Se o governo não conseguir cumprir o seu papel, se desistir da tarefa ou se voltar a colocar os cidadão nas ruas e nas praças do país, tem de haver uma equipa preparada para aceitar o desafio. Preparada = em colaboração com a sociedade civil.

 

Portanto, se querem assustar os cidadãos que já cumpriram a sua parte e assim criar instabilidade, pensem de novo.

V. Ex.cias façam o favor de cumprir a vossa parte, atirem-se ao trabalho, revelem responsabilidade, e apresentem resultados.

O governo: se só sabe cortar, corte nos sítios por onde deveria ter começado. A estabilidade passa por respeitar os cidadãos que querem tréguas desta guerra psicológica, deste circo nas televisões, da voz do ministro das finanças.

O PR: é o mediador de possíveis encontros, acordos, negociações. Antes de discursar, é favor pedir a um especialista para lhe rever o texto.

A oposição: Ter a calma necessária para não se deixar provocar. Estarem atentos, alerta e garantir alguma estabilidade. Se o governo resolver provocar uma nova agitação social, tem de existir uma parte da organização política com a responsabilidade de manter alguma estabilidade. Pode ser que o governo atine. Pode ser que mude o ministro das finanças (o rosto da austeridade) e o da economia (que perdeu a credibilidade ao deixar esvaziar as suas funções). Pode ser que isto se aguente pelo menos até Setembro. Nessa altura já há as autárquicas.

 

 

 

 

Algumas horas mais tarde:

 

De facto, o governo, digo, o ministro das finanças resolveu esticar a corda e provocar reacções, na sua postura e atitude na comissão de inquérito. Reteve um documento importante, o DEO, da estratégia orçamental, e colocou, de forma ameaçadora, se não se pode aumentar impostos então vai-se pela despesa. Nada de novo. Com a mesma arrogância e indiferença a que nos habituou. É a repetição da chantagem e de tentar instilar o medo nos cidadãos, uma estratégia fria e calculada de provocar uma reacção que enfraquece quem lhe responder à letra.

Há muitas formas de violência e esta é uma delas. Uma espécie de violência psicológica mas que tem efeitos na vida das pessoas como se de uma guerra se tratasse. Nesse sentido, os tais cortes na despesa deixados em suspenso, assim friamente e em tom de ameaça, revelam uma indiferença que se torna até perversa.

 

É uma forma de violência fria e calculada a que não estavamos habituados. E com a qual ainda não aprendemos a lidar. Mas é bom que aprendamos depressa porque é com estes espécimens que teremos de lidar nos próximos tempos: tecnocratas europeus e gente que serve interesses financeiros, e que tem um plano para a Europa e para cada um dos países intervencionados ou apoiados.

 

 

Para concluir o dia de hoje com uma reflexão:

 

Espero que amanhã as manifestações na rua sejam mais de união das pessoas, da confiança em si próprias e na sua capacidade de sobrevivência, e que juntas se irão preparar para lidar com esta estratégia da violência, do que simples protestos.

Estamos para além do protesto, estamos já na fase da defesa da vida, porque já é de defesa da vida que se trata, de sobrevivência das pessoas.

A agitação social, sobretudo quando reactiva a provocações e ao esticar da corda, só enfraquece o mais fraco da equação. Há que fazer o caminho para se tornar mais forte.

A democracia tem mecanismos. A inteligência e a criatividade dos portugueses, e o seu instinto de sobrevivência, hão-de criar formas inteligentes de defender a vida das pessoas e de sobreviver à troika, a esta Europa, a estes tecnocratas e a este governo.

 

 

 

 

publicado às 13:04

Saiam de cima da economia se a querem pôr a mexer!

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.04.13

Já cá ando há tempo suficiente para ter visto o lindo resultado sempre que os governos se pôem a querer animar a economia. As suas propostas são sempre iguais (há décadas), com novidades cosméticas (os nomes atribuídos às medidas), e sempre se esgotam em meses ou um ou dois anos, sem uma avaliação adequada e séria dos seus resultados. É mais um desperdício de recursos, de investimento.

Não houve sequer um debate aberto à sociedade civil, aos seus economistas, aos que estão no terreno, aos que arregaçam as mangas, aos que conhecem o país, aos que conhecem a Europa e os seus constrangimentos actuais, aos que conhecem os novos mercados.

Nem se percebe que modelo de país têm na cabeça agora que acabaram de destruir o pouco que existia.

O anterior governo tinha um modelo de país, pelo menos: modernaço, verde, tecnológico, do novo-riquismo, ainda que fosse tudo em plástico e apresentado em powerpoint. Os Estados Gerais de Guterres também tinham um modelo de país, mas depois das expectativas geradas acabou num "pântano". E até o cavaquismo teve o seu modelo de país: o betão, as auto-estradas, os centros comerciais, a habitação própria, o consumismo e o cartão de crédito.

 

Mas este governo parece completamente alheio ao país que somos e ao país que podemos ser, o modelo de país é o dos salários baixos, o dos que não têm acesso a cuidados de saúde, nem a educação de qualidade, nem a segurança, nem a protecção na velhice. Tudo isto é visto como natural: as desigualdades sociais a aumentar com uma minoria de privilegiados e protegidos encostados ao Estado (banca, grandes grupos económicos, PPPs, empresas públicas mal geridas, etc.) e o resto da população. Também a fome já é vista como normal, porque aguentam e aliás os gregos ainda estão vivos.

O país para este governo é uma espécie de mapa com posições muito claras, como uma batalha com as suas posições bem definidas: o Estado a cortar são as pessoas que trabalham no terreno, que lidam directamente com as pessoas, não são os gabinetes e os institutos centrais; o Estado são os serviços que se prestam às pessoas e a qualidade desses serviços, e os apoios mínimos às crianças e aos mais velhos, às famílias sem recursos, não a gestão danosa dos dinheiros públicos e a incompetência na gestão dessas empresas.

 

Para evitar a ruptura entre os políticos (e aqui podemos englobar os partidos, deputados, gestores públicos, autarcas, e demais profissionais da política), e a restante população do país (a sociedade civil), há uma negociação e um contrato possível: saiam de cima da economia e tratem da vossa parte (saúde, educação e segurança).

 

É a sociedade civil que melhor sabe como pôr a economia a mexer, mas tem de se ver livre de:

- burocracias;

- IRC;

- IVA;

- taxas disto e daquilo;

- IMI (se há isenção para os grandes, os pequenos têm muito mais direito);

- direito de recusar enquadramento num programa pré-definido pelo Estado, escolher o seu próprio modelo;

- direito de recusar dicas sobre um plano de negócios, escolher os seus próprios tutores na sociedade civil;

- direito de recusar as acções de formação centrais, escolher os seus próprios formadores na sociedade civil.

 

E entretanto começar a cortar por onde deveriam ter começado:

- renegociar as PPPs (já dá para acorrer a casos de emergência social);

- pôr a banca e demais isentos a pagar IMI (já dá para evitar mais cortes de salários e pensões);

- extinguir institutos, empresas e fundações (já dá para colocar mais postos de gnr no interior e dotar os bombeiros de meios essenciais);

- nº de câmaras municipais (para cerca de metade) e repor todas as juntas de freguesia extintas (já dá para ajudar a pagar os juros da dívida);

- nº de deputados (para metade) e mudar a lei eleitoral, pois os eleitores têm o direito de saber em quem estão a votar, na pessoa concreta que os representa, e acabar com as mordomias dessa profissão política e respeitar as incompatibilidades de interesses (já dá para a manutenção e limpeza dos serviços no terreno);

- se tiverem mesmo de reduzir pessoal, começar por negociar as rescisões amigáveis com os gabinetes centrais em vez de deixar os serviços no terreno sem capacidade de resposta (já dá para deixar de pagar renda, água e luz de alguns edifícios centrais);

- deslocar-se em carrinha única de e para os conselhos extraordinários de ministros (já dá para o papel higiénico das escolas e hospitais).

 

Além disso:

- pedir ao BCE que reverta para o país 1,5 mil M€/ano que ganha com a nossa dívida (já dava para o recente buraco da gestão danosa de dinheiros públicos);

- responsabilizar todos os intervenientes na gestão danosa de dinheiros públicos (nem que seja só para exemplo de futuros aventureiros);

- deixar de adquirir bens importados da Alemanha até mudança de atitude hostil e preconceituosa dos seus políticos e tecnocratas (esta é facultativa).

 

E há muitas outras formas de cortar no Estado, antes que esse Estado entre em colapso.

E lembrem-se, políticos e tecnocratas, deputados e autarcas, gestores públicos e grandes grupos, V. Ex.cias vivem do Estado ou a ele encostados. Mas cortaram do lado dos serviços que o Estado prestava: saúde, educação, segurança. Isto é, do lado dos mais vulneráveis.

Raciocinem comigo: se não cortarem agora do lado dos que se mantêm nas excepções, dos que detêm o poder, e isso já foi percebido pelos cidadãos, acham mesmo que a ruptura não está iminente?

Em cima de um desastre económico, nada pior do que convulsões sociais, o desespero de quem não tem nada a perder, nem presente nem futuro no país.

Saiam de cima da economia, em vez de inventarem mais fomentos desactualizados e programas obsoletos, que nunca levaram a lado nenhum.

Libertem as pessoas do vosso peso insuportável (porque V. Ex.cias é que são insustentáveis).

 

 

publicado às 10:20

Uma pessoa pensa ter observado ao longo da sua vida todos os erros possíveis de gestão política, financeira e económica, que traduzem erros de natureza mais profunda, moral, ética, cultural, mental, psicológica, e verifica que ainda está longe de perceber toda a dimensão do que se está a passar na Europa e no país.

Porquê? Em primeiro lugar, porque é difícil aceitar uma explicação que não seja benigna, pois de outro modo a verdade que nos surge à frente é verdadeiramente inconcebível:

 

- Como podem existir pessoas que em lugares-chave de gestão, em que as suas decisões podem afectar milhões de pessoas concretas, de vidas concretas, não hesitam em colocar todas essas pessoas concretas, vidas humanas, em risco, para seu benefício e dos seus grupos de referência?

- Como podem existir pessoas em lugares-chave de gestão que não hesitam em colocar países subjugados à sangria da emigração, à fome, sem futuro, para seu benefício e dos seus grupos de referência?

- Como podem existir pessoas que em lugares-chave governam contra os seus concidadãos, vendendo-os, país e cidadãos incluídos, nesse plano de subjugação, para seu benefício e dos seus grupos de referência?

 

Mas é isto o que se está a passar na Europa e no país. Só assim se compreende que os erros cometidos por gestores políticos e financeiros, em lugares-chave, tenham sido premiados e não responsabilizados.

Exemplos:

 

- ida de Durão Barroso para a presidência da CE, abandonando o país à sua sorte numa altura decisiva para a sua recuperação. (O resultado dessa saída já era previsível e já estava a planear-se por detrás das cortinas do então PR: entregar o governo de novo aos socialistas, ao tal "pântano"). Entretanto, ainda lá continua depois de reconduzido;

- ausência de supervisão bancária do então governador do Banco de Portugal, Constâncio, que além de inventar um número para o défice (6,83 o constancio number), foi promovido para o BCE;

- o anterior PM, depois de ter levado o país à bancarrota, aí o temos como comentador da televisão pública e dizem, com ambições de uma candidatura à Presidência (!);

- o ainda ministro das Finanças baseou tecnicamente a receita da austeridade num estudo de dois economistas que agora se veio a verificar ter um erro de excel (?) e não foi admoestado sequer, lá anda por Washington enquanto por cá colocaram dois ministros, um deles a apelar ao consenso. (O estudo dos dois economistas em que se baseou o ministro só pode ter sido encomendado e preparado já com o erro incluído pois a tese que defende, sobretudo a que prevê a animação da economia mal se baixa a dívida para menos de 90% (!?), parece mesmo saída de um gabinete de tecnocratas. Até porque, convenhamos, a austeridade não permitiu baixar a dívida, antes a aumentou. E segundo, todos sabemos intuitivamente que baixar drasticamente o nível de vida das famílias contrai a economia, logo, depois da economia destruída onde está a animação possível?)

 

 

E entretanto, nesse processo, há crianças com fome no país, há velhos desprotegidos no país, teme-se que actualmente já nem todos tenham acesso a cuidados de saúde nem acesso à educação. Trata-se da vida concreta de pessoas concretas. Nada que lhes diga realmente respeito.

 

Como tentarei demonstrar em breve, os políticos precisam tanto ou mais do Estado do que os cidadãos. Eles é que vivem exclusivamente do Estado, as suas carreiras dependem directa ou indirectamnte do Estado, assim como os grupos de referência que realmente representam. Os cidadãos já perceberam isso. Já estamos na fase do Eles e Nós.

 

 

 

publicado às 16:05

A reunião de ontem foi apenas para inglês ver ou, dito de outro modo, fez parte do teatro político. E teve erros que vou especificar e que me levam a concluir que o PSD não sabe o que é uma negociação. O que não admira, pois também não sabe o que é uma coligação.

 

Numa negociação de duas partes tão afastadas pelas soluções que propõem e pela hostilidade entre egos políticos (é o que temos),  deve existir uma mediação ou uma preparação para a aproximação. Tem de haver uma preparação prévia para determinar a receptividade de cada parte para flexibilizar a sua posição, se se está de boa fé e a falar a sério. E se se considera que o país merece esse esforço de cada um, a sua responsabilidade de gestor político.

 

Se de facto o PSD quisesse mesmo aproximar o PS, envolvê-lo numa negociação para definir um plano de acção, um caminho viável para o pagamento da dívida sem deixar o país à fome e sem economia (que é precisamente o que o governo está a fazer), teria preparado a reunião em que numa primeira fase estariam as figuras secundárias para estudar as áreas de flexibilização possível e só depois podem as primeiras figuras dar a cara e mostrar resultados positivos da reunião (com apertos de mão para registos históricos futuros).

Mas não foi nada disso que aconteceu. O PM chamou o líder da oposição para enfrentar 4 personagens do outro lado da mesa. O líder da oposição ficou imediatamente reduzido na sua posição negocial. E este é já o segundo erro do PSD.

 

O terceiro erro tem a ver com o parceiro de coligação, o CDS. Do lado do CDS aparece Mota Soares, uma segunda figura no governo, quando deveria estar a primeira figura do CDS no governo. Assim, aparece a primeira figura do governo, o ministro das Finanças, que hoje já é percebido como o homem da troika (de facto, é um funcionário da alta finança que veio apenas cumprir uma tarefa). 

 

Podemos concluir daqui que:

 

- já não temos um governo propriamente dito, se alguma vez tivemos. Tratou-se de uma encomenda da troika em que um tarefeiro veio executar uma tarefa. Ficámos nas mãos da troika antes mesmo da troika descer no aeroporto. Alguns ministros fizeram o melhor que puderam nessas circunstâncias: o ministro da Saúde e o ministro dos Negócios Estrangeiros são os que destaco. O ministro da Economia foi logo manietado e só surgiu para fazer o marketing do governo sempre que a situação se tornava crítica;

 

- nunca tivemos um governo de coligação, portanto com a representação e legitimidade que isso lhe garantia, mas apenas um governo PSD com o apoio quase acrítico do CDS, para cumprir à risca o que a troika ia determinando e sempre com o mesmo alibi: o anterior governo tinha levado o país à bancarrota (é verdade, mas há maneiras de o tirar da bancarrota, só que o PSD não as quer escolher);

 

- o governo PSD mais uma perninha do CDS nunca optou por soluções viáveis para o país e que comprometem os interesses corporativos, a começar pelas câmaras municipais, preferindo fechar as Juntas de Freguesia que são uma rede de comunicação e de apoio fundamental nas pequenas comunidades (além da tristíssima figura de autarcas que já cumpriram 3 mandatos e querem candidatar-se a outra câmara, como profissionais camarários, o que levou alguns cidadãos a iniciar movimentos como este, fazer cumprir a lei autárquica dos mandatos). Mas há muitos outros interesses identificados e alguns deles também já percebidos pelos cidadãos, que levarão a outros movimentos à medida que a situação se tornar insustentável.

 

 

Se o PSD não tem capacidade de governar em coligação, isto é, de uma negociação que deveria ser continuada e permanente com o parceiro de coligação, então como pode ser capaz de negociar com a oposição? Está bem de ver que não é capaz, não adquiriu essa capacidade fundamental para enfrentar os desafios que nos esperam como país e como comunidade de cidadãos. O PSD está sozinho dentro do governo e fora dele. Porque é nessa posição de força e de chantagem política que se colocou e quer continuar a colocar: está do lado da troika, está do lado dos grupos financeiros, está do lado dos tecnocratas europeus.

 

Poderíamos ainda fazer o seguinte raciocínio para uma hipótese benéfica: o PSD escolheu um homem experiente na alta finança e na tecnocracia europeia, um homem da confiança da troika, para conseguir condições favoráveis para o país. O seu discurso seria assim entendido como o teatro político para fora, para os mercados, para imprensa estrangeira.

Mas logo percebemos que a agenda é outra: empobrecer o país, transformá-lo numa irrelevante estância de férias, ou mesmo de condomínios para a terceira idade, de europeus abastados. Um país sem indústria, pescas, agricultura, é um país dependente do exterior e não há economia que viva apenas do turismo e de serviços.

A agenda inclui baixar o nível de qualidade de vida dos cidadãos no seu conjunto, porque eles acham que sim, que só alguns (muito poucos) podem ter acesso à alimentação de qualidade, à saúde, à educação, ao conforto mínimo, à realização profissional.

A agenda inclui pôr a economia (baseada em trabalho precário e mal remunerado) a suportar as finanças do Estado, das empresas privilegiadas, dos grupos de interesses vários, das PPPs, das negociatas, dos bancos, das especulações, dos que não pagam impostos no país, nem IMI, das off shores, etc.

 

Está feito o raciocínio, não há nada de benéfico na agendinha do governo PSD com uma perninha do CDS, nada de benéfico para os cidadãos ou o país, bem entendido.

 

 

Não esquecer sobretudo o essencial:

 

1. Como pagar a dívida com custos mínimos para a vida concreta de pessoas concretas do país? Pessoas concretas que já estão a sofrer na pele há vários anos, pessoas concretas que têm um valor único e não negociável: o valor da vida;

 

2. Informar os cidadãos da verdade, os números exactos (já não acredito nos números que nos dão), em vez das vozes desencontradas de jornalistas-comentadores (?), políticos-comentadores (!), ex-PM-comentadores (...), ex-presidentes de câmara-comentadores (!), deputados-comentadores (!?), numa promiscuidade indescritível. Só se chama um comentador se é um especialista nalguma matéria (economista, fiscalista, relações internacionais, politólogo, enviado especial, médico, psiquiatra, etc.) Não se chamam comentadores para atafulhar as cabeças dos espectadores com opiniões ignorantes de propaganda partidária e de interesses financeiros ocultos, pelo respeito mínimo pelos espectadores, claro;

 

3. Se o PSD não conseguir governar em coligação com o CDS nem negociar com o PS, o Presidente deve envolver-se numa possível solução governativa que inclua responsáveis (sensatos e experientes) dos 3 partidos, que deverão apresentar uma equipa consistente que saiba trabalhar em conjunto, com uma cultura de colaboração.

 

 

O país não vale este esforço dos responsáveis? É agora, ou será tarde demais. Até porque se desenha no horizonte uma provável saída do euro. E aí todos perdem, mesmo os que têm os seus lucrozinhos noutra moeda ou em off shores. A onda será sentida por todos, excepto os que aprenderem a surfar.

 

 

publicado às 11:06

Que Europa é esta?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.04.13

Foi interessante o programa mais recente de Maria Flor Pedroso com os três comentadores habituais: o prof. Soromenho Marques, a jornalista espanhola muito simpática e bem-humorada e o editor do Sol. O país, o governo, a Europa, os políticos, a insensatez geral.

Só o editor do Sol defendeu a prestação do governo nestes últimos dias. O professor manifestou a sua preocupação relativamente à insensatez e falta de tacto político. A jornalista contextualizou os factos pois é assim que os torna compreensíveis ao público espanhol.

Também só o editor do Sol revelou acreditar no federalismo europeu. O professor e a jornalista seguraram-se mais à ideia de uma relação privilegiada Portugal - Espanha, e depois em diversos graus de negociação país a país. Concordo com esta perspectiva e nunca compreendi a expressão, também insensata: Não somos gregos

 

Também concordei com a análise do professor quando receia que na Europa se dê uma autêntica explosão, referindo que espera que Portugal não seja o seu ground zero. Já me ocorreu que isso pode acontecer, mas prefiro a expressão sacrifice zones, expressão que começou a ser utilizada nos States pelos engenheiros do departamento de energia, no final dos anos 80, para classificar as zonas contaminadas, e que me parece mais aproximada.

Chris Hedges utiliza esta expressão para regiões da América que foram autenticamente utilizadas de forma predatória por empresas corporativas e depois abandonadas sem qualquer preocupação de protecção da saúde, segurança e qualidade de vida mínima dos seus habitantes.

 

 

 

Já temos no país a desenhar-se e a agravar-se algumas sacrifice zones: o interior abandonado à sua sorte, o envelhecimento da população, ausência de transportes, correios, postos da GNR, cuidados médicos, redução de juntas de freguesia, aumento de criminalidade, e algumas zonas urbanas estigmatizadas com tendência a transformar-se em guetos. 

Possíveis sacrifice zones europeias: Grécia, Chipre, Portugal, e alguns países de leste a não ser que sejam poupados por uma questão estratégica. A serem poupados por um triz: Espanha, Irlanda, Itália, por se tratarem de economias fortes que levariam tudo atrás.

E pensar que as fugas ao fisco dos mais ricos na Europa, tudo o que vai directamente para off shores, equivale ao produto interno/ano de Espanha...

 

Também gostei da referência do professor ao Padre António Vieira como uma figura determinante numa época dificílima para o país, e a um estudo de investigação sobre as Cartas Diplomáticas, publicado em livro.

A natureza universal do povo português foi completamente esquecida e desvalorizada, a não ser quando foi recordada por Bento XVI na sua visita a Portugal. Vamos sentir a sua falta na Europa.

Hoje as figuras do país e na Europa são apenas sombras de sombras de sombras, não são luminosas nem esclarecidas. E não nos vão guiar ou orientar para nada de bom. Os cidadãos europeus terão de se unir antes que seja tarde demais.

 

 

 

Entretanto: e depois de aqui falar das figuras da Europa a desaparecer, descobri no Truthdig uma homenagem a um resistente, Stéphane Hessel, que propõe num livro Indignez-vous, adaptado nos States por Time for Outrage. O termo indignação, como refere, traz em si mesmo a palavra dignidade, uma palavra-chave. Ética é outra palavra-chave. Responsabilidade é outra. Cidadãos do mundo, cidadãos que sabem resistir.

 

Há muitas formas de resistência, a rua é uma delas mas não é a única e, a meu ver, nem é a mais eficaz. Já vi documentários em que corporações se adaptaram a exigências de consumidores. Não é a política também uma forma de produto? Não é a informação adulterada outro produto de consumo? Assim como determinadas empresas que operam em monopólio? Os próprios bancos, indiferentes aos seus concidadãos, que beneficiam com a crise, e que nem pagam IMI? Grandes empresas que não pagam impostos no país? E os negócios não declarados e as off shores?

 

 

publicado às 16:18

O teatro político de um sistema feudal que colonizou o país

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.04.13

Há muitas formas de olhar para a nossa situação colectiva actual, de país entalado na Europa a pagar a credores a irresponsabilidade de um sistema político que serve determinados interesses, a começar cada um pela sua vidinha, desde os anos 80.

 

Escolho a perspectiva que hoje, passados tantos anos a observar de forma distanciada o exercício do poder neste país "colonizado", me parece a mais fidedigna e abrangente:

A democracia prometida é uma farsa, como poderei desde já adiantar, quando não há verdade. Sem verdade não há confiança. E sem confiança não há representação. Sem representação não há legitimidade. E sem legitimidade não há democracia. E isto vale para todos os governos, PRs, e PMs dos anos 80 até hoje. Também vale para todos os partidos e sindicatos e afins. E para gestores de empresas públicas e PPPs. E também para jornalistas (com raras excepções), comentadores políticos e económicos (com raríssimas excepções), entretenimentos vários, telenovelas incluídas, todo o circo a que temos direito.

Todos fazem parte integrante de um sistema, um sistema que poderemos equiparar a um sistema feudal porque é disso que se trata: há os senhores feudais, os que os servem, os que servem os que os servem, as ramificações, a rede, os avençados, os aspirantes, os serviçais.

 

Como o poder legítimo de uma democracia tem de ser constantemente avaliado e negociado em debates e acordos abertos à sociedade em geral, e isso não garante a estabilidade do poder, tratou-se de:

- negociar entre si o poder e os seus benefícios, cada um com o seu quinhão sendo o maior para os senhores feudais;

- servir os grupos certos, lá fora e cá dentro, os diversos interesses que alimentam o sistema como um todo;

- desempenhar cada um o seu papel no grande teatro político.

 

Se isto é assumido de forma consciente? Cada um terá a consciência pelo menos do seu papel e dos benefícios que o desempenho adequado desse papel implica. Mas haverá quem tenha acesso a mais informação ou os conhecimentos certos, os clubes privados, os grupos de topo.

 

Nesta perspectiva abrangente, não há separação entre governo, oposição, PR, Juízes do TC e Juízes supremos, gestores de empresas públicas e PPPs, empresários favorecidos, banqueiros, canais televisivos, representantes dos patrões e dos profissionais, sindicatos, comentadores políticos e económicos, e até bloggers e outros avençados e aspirantes. Todos servem o mesmo sistema e o seu teatro.

 

Assim sendo, o puzzle começa a ganhar forma, não acham? Vamos a um exemplo para fazermos uma validação desta perspectiva. Factos aparentemente separados que estão ligados entre si:

- governo dramatiza expectativa relativamente à resposta do Tribunal Constitucional;

- RTP, a televisão ainda pública, contrata o ex-PM como comentador político pro bono;

- publicita-se e comenta-se até à exaustão a entrevista do ex-PM e agitam-se as águas turvas, na Presidência e no PS;

- líder do PS perde a calma e a compostura e estraga o trabalho conseguido até então de "oposição responsável";

- governo arranja manobra de diversão com "bode expiatório", a primeira baixa governamental, para afastar a atenção do seu ministro das finanças relativamente à moção de censura do PS e ao resultado previsto do Tribunal Constituional;

- televisões entretêm-se a falar de um ministro, de uma universidade, de um relatório, de uma licenciatura;

- Tribunal Constitucional apresenta resultado da avaliação dos artigos do orçamento 2013 com a usual pompa e circunstância;

- governo dramatiza o resultado e simula surpresa;

- PR prepara clima para "governo de salvação nacional".

 

Agora? Salvação nacional? Salvação de quê?

Nesta perspectiva mais abrangente, não se trata de salvação nacional, mas de salvação do sistema político que serve os interesses de um sistema feudal. As personagens de que se fala são consensuais, o que quer dizer águas mornas pelo menos para o olhar de quem está fora do sistema.

 

Este ano 2013 promete ser bem revelador. Como uma fotografia a sair do líquido da revelação, as figurinhas começam a surgir, uma a uma, na sua verdadeira natureza e papel que desempenham.

 

O que pode um cidadão comum fazer? Observar, reflectir e agir segundo a sua consciência.

 

 

Para terminar numa tonalidade inspiradora, aqui vai uma cena de um filme que nos revela muito do que é realmente mobilizar as pessoas, inspirar as pessoas. Como referi lá em cima, trata-se da verdade, da confiança, dito de outro modo, da interacção baseada no respeito por si proprio e pelos outros. Neste filme há um memorando (completamente diferente do da troika), que se transforma numa Missão para um negócio que envolve essencialmente a interacção entre pessoas:

 

 

 

Como também vemos nesta parte do filme, o inspirado, aquele que diz a verdade, aquilo que pensa e que ninguém diz, terá os dias contados naquela empresa mas iniciará um caminho que o leva a inspirar outros e a mudar a própria cultura da actividade em questão (agente desportivo).

É evidente no filme que esta actividade está inserida numa cultura de espectáculo, de consumo de massas, mas este memorando (o do filme, não o da troika) pode aplicar-se a todas as actividades profissionais que envolvem pessoas.

 

 

publicado às 16:54


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